domingo, 30 de outubro de 2011

Era Azul.

''Quando abraços eram coletivos''

A tarde banhava-se de Azul. O Sol sumia, a Lua vinha e de azul tudo pintava. Olhava pela janela e não era dia, não era noite, Era Azul. Foi meu tempo de criança. Tempo em que de tarde banhava-me e saía bailarinando por aí. Minha Era Azul.

Certo dia viajei ao azul e à casa nunca mais retornei, o tempo havia mudado. Até mesmo antes disso já sentia essa mudança na pele. Vez ou outra me escondia por trás de um colarinho apertado e de curioso observava o mundo, como se o visse por uma fechadura. Mascarado assim, esperava azulecer para à casa voltar.

No entanto, como dizia, naquele dia tudo mudou, à casa não mais voltei e de gravata dormi. Anos depois, ao olhar-me no espelho, estranhei-me o reflexo, era eu, havia mudado. Senti saudades do tempo em que abraços eram coletivos e cantávamos amor pelas madrugadas. Meu pescoço nunca mais afrouxou, e minha vida, nunca mais azuleceu.

- Ilustração por Mariana Brito, http://feltthings.blogspot.com

sábado, 22 de outubro de 2011

As Palavras.

''Frutos da mente, não da alma"

Vou fazer um rabisco. E trancá-lo para sempre, assim nunca o lerão. Perderei de vista ou jogarei fora, não importa. Só o farei para tirar do peito. No papel, escreverei sobre Eterno e Passado. Fundirei Certo e Errado meio-a-meio. Jogarei do abismo os preceitos mal-formados. Vestirei a pele dos aventurados. Saltarei vírgulas e pontos-finais. Criarei linhas, para fora e para dentro. Acentuarei o assento, do mais grave ao mais agudo. Tudo, tudo.

Palavras dizem pouco. Delas não mais preciso. Meu rabisco dirá tudo. Palavras são frutos da mente, não da alma. Escreverei com o corpo, puro instinto racional. Hei de ligar os paradoxos globais em um só traço. De ponta a ponta. Coisas que não faria no dia-a-dia. Ninguém as faria. Estamos presos às palavras: Já pré-defiram o que falaremos e pensaremos! Mas não dessa vez, vou fazer diferente: Vou fazer um rabisco...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

No Passado.

"Nós que aqui Estamos por Vós esperamos"

Assim como ele temia... No paletó ainda tinha o perfume. Era ela. Ainda estava lá, confortando-o. Rapidamente vestiu-a por cima da camisa branca. Parecia diferente agora, como se o vazio tivesse sumido. Sozinho. Alguns passos e deixou a casa. Estava nublado lá fora. Sombras rondeavam no local. De olhos sombreados, todos escondiam o rosto. Era hora lembrar, hora de esquecer. Cemitério. Por entre as figuras negras, podia vê-la ser enterrada. Chovia à seco aquela noite. Quando no orvalho sumiu. À baixo de todos eles. Silêncio. Voltava para casa em passos curtos. Era tarde, era tarde demais. Mãos no bolso. Quando no tecido sentiu. Era um papel, pequeno e amassado. Trouxe aos olhos o pequeno recado. Letra conhecida. Parou. Era ela. Assim como ele temia... Rapidamente juntaram-se as letras. Duas palavras. Escorreu-lhe um sorriso. Escorreu-lhe uma lágrima. Era ela. Era ela que dizia:
- Te amo.

Teu Odor.

"Dessa vez sim."

Para mim, o que tu és,
Lembra um sussuro ofegante.
Sua-me da cabeça aos pés,
Soa-me um riso distante.

De dia, cheiras amor,
À noite vens-me paixão.
Em tudo assina o odor
Que me aumenta a percepção.

Joguei-me nesse tormento,
De onde nunca mais saí.
Até que veio o momento

Em que notei no meu estudo:
Não era tudo que cheirava a ti,
Mas eu que cheirava-te em tudo.

sábado, 8 de outubro de 2011

Coração de Catavento.

''Como vento, és sentimento''

Canto versos, catavento,
Tu que não mais catarás.
Pois catavas do lamento
De outros ventos, no detrás.

Voou os sete mares,
Cantou os temporais,
O conto desses ventos,
Nos perfumes cardeais.

Me pegou desprevenido,
Quando o sopro retornou.
Pobre és tu, catavento,
Que, jamais, tanto catou.

E os versos que já cantara
Se ainda os canto, tanto faz.
Rimas não vão nem vem,
Rimas não rimam mais.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Meu apêndice lírico.

''Campo Deter-minado''

- Não doutor, eu vivo só disso mesmo. Às vezes o dinheiro vem, às vezes não. Apesar de tudo, eu até gosto de ficar aqui, tenho tudo que preciso! Tenho sombra quando o sol aparece, tem uma torneira aqui do lado, tenho até uma amiguinha: Jurema! Ela é uma coruja, eu dei esse nome a ela.

Tem horas que eu até fico um pouco chateado... Tem uns dias que não tem ninguém nas ruas. Ficam todos em casa, ai eu me sinto meio sozinho. Pior ainda é quando chove! Eu fico tocando minha viola com Jurema aqui do lado, na chuva. Eu até prefiro que chova pra ela não perceber meu choro. Quando chove do céu...

Na verdade, não tenho nada contra chorar na chuva. É até melhor! Lava-me a alma, lava-me a pele. Minha viola até que soa melhor... Ah é! Essa é minha viola! Ela não tem nome, quem tem nome é a Jurema. Nunca pensei em nomeá-la. Pensando bem, acho que já nasci tocando. Tem coisas que não dá pra se livrar, meu caso é essa viola, por isso toco e sempre tocarei-a. Minha vida é assim... O senhor, por acaso, teria uma esmola ai?