segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A Menina e o Beija-Flor.

"Tu partisse e eu mal te vi. Tu voltasse e eu bem-te-vi."


Por meio às tangerinas, notei seus olhos. Eram azuis como a tarde que partia, azuis como nenhuma flor que um dia já beijara. Eu cheguei de mansinho, pela folhagem. Já ela, rodopiava, de alegria talvez. Vi-me perdido um bom tempo naquele balanço viciante. Ela então deparou-se com a pequena criaturinha que a espreitava e parou. Era eu, perdido naquele azul imenso de mar. Logo, fiquei mudo e mais uma vez parti. Até cheguei a pensar no que dizer, mas simplesmente nada me saiu naquele momento.
Eis meu legado... Eu que tanta flor beijo, nunca beijei a mais encantadora delas. Eu que passo de flor em flor, que beijo o sabor desse mundo, nunca saborearei o melhor deles, o singular sabor do amor. Todo ele era ela e transbordava o mais doce aroma por suas suaves curvas. Será que coração de beija-flor bate rápido porque andam sempre apaixonados? Creio que sim... Cada um deve ter uma flor especial para amar. Assim, podem amar sempre, viver rápido e morrer de tanto amor.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Devaneios Perdidos de um Suicida.

"e o resto é infinito"

Em um momento sereno, passado e futuro sentaram-se ao meu lado. Vieram, então, à passo leve, as lembranças de um passado esquecido. Uma vida em quebra-cabeça. Cada peça carrega uma lágrima, um sorriso. Algumas delas levam amor, outras saudade. Umas guardam rancor, outras paixão. Mas todas montaram o todo que um dia pude ser.

Em meio a um sorriso trêmulo fui acometido por um mar de felicidade. Me arrastou a maré e me jogou na profundeza. Felicidade essa que ninguém escapa; tudo vê, que tudo toma, tudo arrasta, aprisiona. O mais puro é o sentimento que nos prende a realidade, todo o resto é infinito.

Talvez não tenha vivido ao extremo, mas não me queixo do que vivi. Sinto, porém, que me fiz enraizado nesse chão e daqui não mais sairei. Perdoem-me céus, mas não deixarei os que amo, ainda devo muito à eles. Perdoem-me terra, mas não mais deixarei-te... Viverei, viverei de pulso forte enquanto o mundo girar e eu tiver punhos para mudá-lo!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Antes de Dormir.

"Longe, palpitam em baile orgânico"

O vento ainda era o mesmo. O sol ainda era o mesmo. O chão ainda era o mesmo. Mas, mesmo assim, tudo havia mudado. Vagava só e de pés empoeirados. Consigo, apenas roupas rasgadas e olhos pesados. Anos atrás havia se perdido nesse mundo inóspito do qual nunca mais saiu. A poeira tomava o ambiente, parecia até saltar das páginas amareladas. A história criara outra realidade no quarto. Era um daqueles livros de capa simples que guardam um mundo fantástico por trás das folhas.

Mundos diferentes criam-se se suas histórias são contadas. As palavras palpitam organicamente em baile. Assim, os mundos são criados. Rodopiam à sinfonia universal. A cada história surge mais um deles. O nosso é um exemplo. Somos todos parte de uma história enorme, cheia de protagonistas e cenários. Provavelmente nossa história está sendo contada em algum lugar. Longe, onde crianças ouvem nossas vidas antes de dormir.

domingo, 30 de outubro de 2011

Era Azul.

''Quando abraços eram coletivos''

A tarde banhava-se de Azul. O Sol sumia, a Lua vinha e de azul tudo pintava. Olhava pela janela e não era dia, não era noite, Era Azul. Foi meu tempo de criança. Tempo em que de tarde banhava-me e saía bailarinando por aí. Minha Era Azul.

Certo dia viajei ao azul e à casa nunca mais retornei, o tempo havia mudado. Até mesmo antes disso já sentia essa mudança na pele. Vez ou outra me escondia por trás de um colarinho apertado e de curioso observava o mundo, como se o visse por uma fechadura. Mascarado assim, esperava azulecer para à casa voltar.

No entanto, como dizia, naquele dia tudo mudou, à casa não mais voltei e de gravata dormi. Anos depois, ao olhar-me no espelho, estranhei-me o reflexo, era eu, havia mudado. Senti saudades do tempo em que abraços eram coletivos e cantávamos amor pelas madrugadas. Meu pescoço nunca mais afrouxou, e minha vida, nunca mais azuleceu.

- Ilustração por Mariana Brito, http://feltthings.blogspot.com

sábado, 22 de outubro de 2011

As Palavras.

''Frutos da mente, não da alma"

Vou fazer um rabisco. E trancá-lo para sempre, assim nunca o lerão. Perderei de vista ou jogarei fora, não importa. Só o farei para tirar do peito. No papel, escreverei sobre Eterno e Passado. Fundirei Certo e Errado meio-a-meio. Jogarei do abismo os preceitos mal-formados. Vestirei a pele dos aventurados. Saltarei vírgulas e pontos-finais. Criarei linhas, para fora e para dentro. Acentuarei o assento, do mais grave ao mais agudo. Tudo, tudo.

Palavras dizem pouco. Delas não mais preciso. Meu rabisco dirá tudo. Palavras são frutos da mente, não da alma. Escreverei com o corpo, puro instinto racional. Hei de ligar os paradoxos globais em um só traço. De ponta a ponta. Coisas que não faria no dia-a-dia. Ninguém as faria. Estamos presos às palavras: Já pré-defiram o que falaremos e pensaremos! Mas não dessa vez, vou fazer diferente: Vou fazer um rabisco...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

No Passado.

"Nós que aqui Estamos por Vós esperamos"

Assim como ele temia... No paletó ainda tinha o perfume. Era ela. Ainda estava lá, confortando-o. Rapidamente vestiu-a por cima da camisa branca. Parecia diferente agora, como se o vazio tivesse sumido. Sozinho. Alguns passos e deixou a casa. Estava nublado lá fora. Sombras rondeavam no local. De olhos sombreados, todos escondiam o rosto. Era hora lembrar, hora de esquecer. Cemitério. Por entre as figuras negras, podia vê-la ser enterrada. Chovia à seco aquela noite. Quando no orvalho sumiu. À baixo de todos eles. Silêncio. Voltava para casa em passos curtos. Era tarde, era tarde demais. Mãos no bolso. Quando no tecido sentiu. Era um papel, pequeno e amassado. Trouxe aos olhos o pequeno recado. Letra conhecida. Parou. Era ela. Assim como ele temia... Rapidamente juntaram-se as letras. Duas palavras. Escorreu-lhe um sorriso. Escorreu-lhe uma lágrima. Era ela. Era ela que dizia:
- Te amo.

Teu Odor.

"Dessa vez sim."

Para mim, o que tu és,
Lembra um sussuro ofegante.
Sua-me da cabeça aos pés,
Soa-me um riso distante.

De dia, cheiras amor,
À noite vens-me paixão.
Em tudo assina o odor
Que me aumenta a percepção.

Joguei-me nesse tormento,
De onde nunca mais saí.
Até que veio o momento

Em que notei no meu estudo:
Não era tudo que cheirava a ti,
Mas eu que cheirava-te em tudo.

sábado, 8 de outubro de 2011

Coração de Catavento.

''Como vento, és sentimento''

Canto versos, catavento,
Tu que não mais catarás.
Pois catavas do lamento
De outros ventos, no detrás.

Voou os sete mares,
Cantou os temporais,
O conto desses ventos,
Nos perfumes cardeais.

Me pegou desprevenido,
Quando o sopro retornou.
Pobre és tu, catavento,
Que, jamais, tanto catou.

E os versos que já cantara
Se ainda os canto, tanto faz.
Rimas não vão nem vem,
Rimas não rimam mais.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Meu apêndice lírico.

''Campo Deter-minado''

- Não doutor, eu vivo só disso mesmo. Às vezes o dinheiro vem, às vezes não. Apesar de tudo, eu até gosto de ficar aqui, tenho tudo que preciso! Tenho sombra quando o sol aparece, tem uma torneira aqui do lado, tenho até uma amiguinha: Jurema! Ela é uma coruja, eu dei esse nome a ela.

Tem horas que eu até fico um pouco chateado... Tem uns dias que não tem ninguém nas ruas. Ficam todos em casa, ai eu me sinto meio sozinho. Pior ainda é quando chove! Eu fico tocando minha viola com Jurema aqui do lado, na chuva. Eu até prefiro que chova pra ela não perceber meu choro. Quando chove do céu...

Na verdade, não tenho nada contra chorar na chuva. É até melhor! Lava-me a alma, lava-me a pele. Minha viola até que soa melhor... Ah é! Essa é minha viola! Ela não tem nome, quem tem nome é a Jurema. Nunca pensei em nomeá-la. Pensando bem, acho que já nasci tocando. Tem coisas que não dá pra se livrar, meu caso é essa viola, por isso toco e sempre tocarei-a. Minha vida é assim... O senhor, por acaso, teria uma esmola ai?


domingo, 11 de setembro de 2011

E se o Sol Não Nascer Amanhã?

"Contos de Por-do-Sol"

O sol toda noite se põe, despeço-me dele então.
Mas sei que não mais a verei, despeço-me dela em vão.
Se o sol não mais voltar, porque ela voltaria?
Sei, porém, que ficará, e o sol volta todo dia.
À noite me vejo perdido em maguas nas águas passadas na beira do mar.
E se em dia me perco em tanta saudade, metade desiste à luz do luar.
Tão breve sumiu, num estante partiu, desaparecera nos mares daqui.
Tão breve sumiu, no instante partiu o meu coração, que a via sorrir.
Não mais a clareira do raio de sol que me faz ir além.
Por mais que eu não queira, o dia se vai quando a noite me vêm.
Sou daqueles que aqui fica, sou daqueles que diz "não".
Se uns vão, os outros ficam. Se uns ficam, outros vão.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Óculos Escuros.


No bosque havia um Carvalho. Alto e magno como era, costumava chamar-me a atenção. Era solitário e brevemente inclinado. As folhas de Outono, que caíam devagar, lembravam-me de pequenas alegrias que deveria ter dado valor. Nos tempos de nostalgia, passava a tarde à sua sombra lembrando-me do porvir. Foi lá onde escrevi meu primeiro verso, ou tentei... Nada me saiu, guardo a folha em branco desde então.

Queria ser que nem o Carvalho; não sente, não chora, não sofre. Eu vivia lutando contra meus anseios... Mas nunca consegui, as árvores não sentem, e eu sou um mero mortal. Vivo apenas por mais um colo, mais um beijo. Sem querer, encostado em teu tronco, me pesavam os olhos e me doía o coração. Não sabia exatamente porque, mas considerava-os sinais de fraqueza. Andava, portanto, com escuras lentes que ocultavam minha expressão. As lentes, no entanto, me refletiam os olhos em pura introspecção. Eu e meus Óculos Escuros.

Andava pelas ruas mascarado de árvore, sem alegria, sem coisa alguma. Era um farsante, certamente. Meus olhos ainda viam-se pelo reflexo das lentes; Olhava vagamente pelas horas, tudo notava, tudo via, mas à noite espelhava-me a dor do sofrido dia-à-dia. Até que me juntei a ti, meu Carvalho. Tu pensas que fui insensato em minha ação, mas creio que mais prudente não poderia ser. Hoje em dia sou feliz, assim como tu és. Juntos aqui, nós três somente; Tu, Eu e meus "Ólhos Escuros".

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A Cor do Girassol.

(algo simples...)

Simplifiquei o simples,
Olhando pela janela.
Materializei o simples
Em uma flor amarela.

Escrevi sobre a vida,
Pensando sobre ela.
Guardei na caixinha,
Uma pétala amarela.

Carreguei-a comigo
Perto do coração.
Pra lembrar-me das flores
Esquecidas no chão.

O girassol girou.
A vida ficou bela.
O girassol pintou
Minha vida de aquarela!

domingo, 10 de abril de 2011

Lembranças de Ribeirão.



Olhei mais uma vez para o bouquet de flores que carregava antes de entrar pela porta. O quarto era pequeno e pacato. Pela janela, o sol iluminava todo o lugar. No meio do quarto estava ela, esticada na cama. Olhava pra mim com uma cara de desconfiada, provavelmente porque sou a primeira pessoa a visita-la após o acidente...
- Bom dia. - disse eu após colocar as flores em cima da mesa. Ela continuava a me olhar com uma cara estranha. Ainda aflita, virou a cara como se não tivesse me visto.
- Já melhorou? Eu sei que é difícil passar por uma cirurgia, especialmente depois de um acidente daqueles...
- Se eu te contar uma coisa, você jura que não conta para ninguém? - disse a velhinha depois de muito checar se não tinha mais ninguém no quarto. - Eles dizem que aqui é Ribeirão Preto, mas eu sei que não é... Tenho que voltar para lá...
- Não estamos em Ribeirão. - respondi em seguida.
- Mas eu tenho que ir para Ribeirão, tem gente me esperando, tenho que ir agora! Onde estão meus chinelos?- falou a velhinha tentando se levantar da cama.
- Calma minha senhora... Venha, eu te ajudo...
- Não. Tenho que voltar para Ribeirão, tenho que ir...
E em um movimento brusco, ela rolou para fora da cama.
Antes de atingir o chão, ela atingiu o céu.
Ribeirão virou lembrança.
Na cama, apenas restou uma pena minha que fora deixada para trás.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Metamorphoses.




Como uma gota que se transforma em fogo,
Venho a ti, mudança implacável.
Mudo, assim, da água pro vinho;
Fujo, assim, vida lamentável.

Como és devaneio oculto,
Fogo que na mente arde.
Queimas nas mãos do poeta.
Brilhas em brasa à tarde.

És brisa que vem do norte,
Cheiro de vida e gosto de morte,
Tempestade dentro de mim.

Busco na Arte a fuga do tédio.
Minha alma, violada em assédio,
Uma metamorfose sem fim.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Todos Nós Morremos Cedo.

(Sr. Pan)

Escrevo aqui minha última carta. Em meus receios, o fato de envelhecer sozinho estava no topo deles. Agora devo ter os meus 60... Ou 70 anos... O fato é que a unica certeza veio até mim, até mais cedo do que esperava. Agora segura-me forte entre os dedos. Sinto que não vou durar muito mais tempo.... Afinal, somos todos mortais.

Quando era pequeno, ouvia histórias de um menino que nunca crescia. "Todas crianças crescem, menos Peter Pan". Lembro-me de ser o próprio Peter Pan. Eu lutava de espada, corria, caçava tesouros, lutava contra piratas, voava! Mas agora... Virei eu. Descobri que não sei voar. Minha vida veio me puxando para baixo a cada dia, cada hora.

Um dia desses fui andar pelo parque. As pessoas não repararam no velho de vestimentas estranhas sentado no banco. Na verdade, de estranho não tenho nada. Sempre fui aos bailes assim. Onde eu dançava com lindas moças de vestido longo ao som da orquestra. Para lá e para cá...

Pela janela do meu quarto olho o céu todos os dias; é um local bem confortável, cheio de retratos em preto-e-branco por todos os lados. A vista costumava ser melhor quando era pequeno, ainda me lembro que olhava as crianças brincando nesta rua. Porém, olhando para ela agora, somente busco inspiração para despedir-me desta vida. Ahh... que saudades tenho de mim. Que saudades tenho deles. Que saudades, que saudades, que saud